Sobre mim

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Sara Castro Make Up

O dia em que me tornei vegan

Tomei a decisão de adoptar este estilo de vida depois de ver o documentário Earthlings, que resume, de uma forma profunda e realista, tudo o que se encontra inerente ao veganismo. Lembro-me como se fosse hoje do momento em que o vi e do turbilhão de sentimentos que despertou em mim. No dia seguinte, após uma profunda introspeção, resolvi retirar da minha alimentação e estilo de vida tudo o que tivesse origem animal ou que contribuísse de alguma forma para a exploração animal.

O que começara com uma motivação ética, rapidamente se tornou num estilo de vida saudável que melhorou significativamente a minha vida. "Porque nós somos o que comemos."

Quando me questionam costumo dizer que houve um "despertar" dentro de mim. Senti naquele momento que contribuir para a exploração e crueldade animal não fazia sentido, ainda que tenha passado 25 anos da minha existência a pensar que era normal. A partir desse momento, comecei a ver um ser vivo no prato em vez de comida. Comecei a ver sentimento e dor em ver de sabor.

Posso dizer que foi uma mudança radical. De um dia para o outro, eliminei da minha alimentação e estilo de vida tudo aquilo que tivesse origem animal ou contribuísse de alguma forma para o sofrimento animal. Não compro produtos que tenham sido testados em animais, ou que contenham ingredientes de origem animal. Refiro-me a produtos tão variados como roupa, calçado, cosmética ou produtos de limpeza. Não contribuo para actividades que fomentem a exploração animal, como circos ou zoológicos por exemplo. 

Foram (e continuam a ser) várias as fontes de inspiração. Entre sites, blogues e livros, portugueses e estrangeiros, pessoas que fui conhecendo ao longo do tempo e outras tantas que ainda não tive a oportunidade de conhecer. Não tive acompanhamento de um nutricionista, por não sentir que fosse necessário. Sabia que o meu corpo estava a reagir bem à mudança. Fui encontrando ao longo do tempo as respostas para todas as minhas dúvidas.


A alimentação
(Tentando resumir e descomplicar a temática das proteínas)

As proteínas são constituídas por aminoácidos, que desempenham inúmeras funções no nosso corpo.
O nosso corpo sintetiza alguns aminoácidos, mas existem outros que só adquirimos através da alimentação, os chamados aminoácidos essenciais. Esses aminoácidos são encontrados em diversas fontes alimentares tanto de origem animal como vegetal. Os alimentos de origem animal são fontes de proteínas completas porque possuem todos os aminoácidos essenciais que o nosso corpo precisa, mas que não é capaz de produzir. No caso dos alimentos de origem vegetal, com excepção da soja e por exemplo, não encontramos facilmente um alimento que contenha todos os aminoácidos essenciais, sendo portanto consideradas proteínas incompletas. No entanto, existem algumas combinações alimentares que complementam os aminoácidos entre si, formando proteínas de alto valor biológico, como é o caso da leguminosa + cereal integral + oleaginosa. Não precisamos de ingerir estes três grupos de alimentos na mesma refeição, apenas temos de variar nos alimentos que nos fornecem essa proteína.

A respeito do cálcio, encontro-o essencialmente nos vegetais verde-escuros (como os brócolos e as couves) e nos frutos gordos e sementes (como a chia).

Existem ainda muitas ideias erradas associadas à alimentação vegan. Os alimentos de origem vegetal fornecem todos os nutrientes que o nosso corpo precisa. O truque é fazer uma alimentação o mais variada possível. Costumo dizer que quanto mais cor tiver o prato, melhor. Cada alimento (ou grupo de alimentos) tem uma determinada função, por isso se o nosso leque de escolhas for alargado, garantimos que estamos a receber todos os nutrientes que precisamos.  

Para além disso, tenho atenção com a vitamina B12, tendo o cuidado de consumir alimentos fortificados (levedura de cerveja e leites vegetais fortificados com B12, por exemplo), e faço uma suplementação com recurso a comprimidos, 2 a 3 vezes por semana. Esta vitamina é produzida por bactérias, que podem viver nos tractos gastrointestinas dos animais, ou seja estes podem absorver a vitamina B12 produzida pelas bactérias. Por esse motivo, e porque o ser humano não consegue fazer esta absorção, a única forma de obtermos esta vitamina é através da ingestão de alimentos de origem animal ou da suplementação/alimentos fortificados de origem vegetal.


A adaptação

Não senti grande dificuldade em adotar e manter este estilo de vida. Tenho a sorte de ter o apoio da minha família e amigos. É fácil contornar a questão da alimentação, em Lisboa existem inúmeros espaços com opções vegan (ou vegetarianas mas que rapidamente se adaptam). Fora das grandes cidades pode ser mais complicado, mas não impossível, com um bocadinho de força de vontade tudo se consegue.

Compro as frutas e vegetais em mercados tradicionais ou pequenas lojas de produtos biológicos, os restantes produtos (cosmética, produtos de limpeza, etc) compro através da Internet ou em lojas especializadas. 

Em relação à roupa e calçado, opto por comprar nas lojas “normais”, tendo apenas atenção às etiquetas de forma a garantir que não foram utilizados na sua produção produtos derivados de animais como lã, peles ou seda.

Não gasto muito mais dinheiro agora do que gastava anteriormente. Em relação à alimentação, gasto o mesmo. Com o dinheiro que gastava em carnes/peixes/mariscos por exemplo, compro agora muita fruta e vegetais (quase sempre biológicos), cereais integrais, leguminosas, oleaginosas, superalimentos. Onde acabo por gastar um pouco mais é nos cosméticos e produtos de limpeza, mas ainda assim a diferença não é significativa.


Mudar de vida

Com a mudança de alimentação, descobri um novo prazer. Cozinhar. Cozinhar exclusivamente com alimentos de origem vegetal foi encontrar um novo mundo de cores, sabores e texturas à minha volta. Um novo mundo de possibilidades. Sem limites para a criatividade. E acima de tudo, saudável.

Apaixonei-me e viciei-me pela cozinha vegan, e decidi partilhar esta paixão. Tomei uma decisão que implicou uma mudança significativa na minha vida. Deixei o trabalho de auditoria numa consultora para me dedicar exclusivamente à cozinha. Surge assim A Cozinha Verde, em Maio de 2013.

O processo de mudança não foi fácil. Mas a partir do momento em que tomei a decisão, senti imediatamente que tinha feito a escolha certa. Por vezes é difícil aceitar que o caminho que escolhemos não era o melhor para nós. A verdade é que me fui apercebendo ao longo dos 5 anos em que trabalhei em auditoria, que aquilo não me preenchia, não me realizava nem acrescentava algo mais à minha vida. Sempre tive muitos sonhos, sonhos esses que estiveram hipotecados durante tanto tempo, pura e simplesmente por uma questão de comodismo e estabilidade. Porque tinha um salário certo ao final do mês, e principalmente porque era mais fácil não arriscar. Mas o meu desejo sempre foi trabalhar por conta própria, criar algo meu, algo que tivesse realmente significado para mim, e que de alguma forma contribuísse para melhorar a vida dos outros. Nunca senti isso na área financeira. 

O veganismo foi para mim o impulso para ir atrás dos meus sonhos. Comecei a desejar partilhar aquilo que estava a viver com outras pessoas e a inspirá-las de alguma forma. Encontrei o meu propósito de vida e lutei por ele. Tão simples quanto isto.

A minha rotina mudou drasticamente. Aprendi a trabalhar sozinha. Pelo facto de trabalhar muito a partir de casa, aprendi a organizar-me e a gerir da melhor forma o meu tempo. Aprendi a não ter horários certos e a ter auto-disciplina. Aprendi a controlar a ansiedade e a aceitar a imprevisibilidade do meu trabalho. Tudo isto não seria possível se não gostasse verdadeiramente do que faço. Se não vibrasse a todo o momento com isto. Se não sorrisse todos os dias pelas palavras bonitas e sentidas que ouço das pessoas que conheço nos workshops, que me fazem encomendas ou que me enviam mensagens a pedir-me ajuda. Sinto que estou a fazer a diferença na vida de alguém. E por isso, tudo isto vale a pena.


Impacto na saúde 

Ao adotar uma alimentação vegan, eliminamos totalmente a ingestão de colesterol e diminuímos drasticamente o consumo de gorduras saturadas. Como opto por fazer uma alimentação o mais natural possível, como poucos produtos processados, preferindo sempre os alimentos mais simples. Aqueles que vêm do campo e não de uma fábrica qualquer. Os outros servem para dar um extra à receita, mas para mim o main ingredient é mesmo aquele que depois de cultivado vem directamente para o nosso prato. 

Todos estes factores contribuíram para melhorar significativamente a minha saúde. Perdi os quilos que tinha a mais, de forma saudável e natural. Nunca mais fiquei doente, e deixei de precisar de comprimidos para o que quer que fosse. As análises que faço periodicamente apresentam valores excelentes, e não tenho carências nutricionais. Sinto que o meu corpo está nutrido, deixei de ter a pele seca, coisa que sempre me caracterizou. Melhorei os meus níveis de concentração e memória, e sinto-me sempre com energia. Aprendi a conhecer o meu corpo e a saber a todo o momento o que ele precisa.

O impacto do veganismo na minha vida foi enorme, a diversos níveis. Tornou-me uma pessoa ainda mais emocional, mais atenta às necessidades dos outros. Fez-me olhar para dentro de mim, de uma forma como nunca tinha feito. Ajudou-me a conhecer-me, a revelar a minha essência. 


Conselhos para quem quer começar

Aprende a ouvir o teu corpo. Ele diz-nos tudo aquilo que precisamos de saber, e indica-nos o melhor caminho a seguir. Porque o que funcionou para mim, pode não funcionar para ti, e vice-versa. Por exemplo, eu mudei radicalmente a minha alimentação de um dia para o outro. Num dia comia carne e tudo o mais que tivesse origem animal, no outro dia não. Para mim e para o meu corpo, funcionou bem. Mas não quer dizer que funcione para ti. Podes ter que ir com mais calma, fazer uma transição mais suave.

E informa-te. Lê. Estuda. Aconselha-te com quem já passou ou está a passar pela mesma situação. A informação é a nossa melhor arma, porque é ela que nos impede de cometer erros.


E por último, mas não menos importante, retira prazer do teu novo estilo de vida. Não o encares nunca como uma “obrigação” (moral, de saúde, etc) mas sim como uma escolha consciente. E diverte-te a descobrir este novo mundo…


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Sara Castro Make Up

2 comentários:

  1. Tão inspirador! Já o li duas vezes e cada vez que o li fez-me acreditar em tantas coisas. Ler isto, preencheu-me o olhar e deu vida ao meu coração: "afinal é possível" - disse ele. E assim vou continuar, lembrando este texto e sabendo que afinal é possível. Grata. ♥

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    1. Obrigada Mariana! :) Que bom que este texto te tenha servido de inspiração... era mesmo esse o objetivo! Um beijo muito grande, Filipa ♥

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